40 anos NOVA FCSH

Adriano Duarte Rodrigues, o cientista músico

Fundou o departamento de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH em 1979 e dirigiu a faculdade entre 1988 e 1993. Agora com 75 anos, Adriano Duarte Rodrigues mantém a paixão pelo trabalho científico, do qual não abdica, e pela música. Às segundas-feiras toca órgão no Mosteiro dos Jerónimos.

Adriano Duarte Rodrigues tinha 28 anos e estava no final da licenciatura em Sociologia na Universidade de Estrasburgo, em França. Tinha acabado de fazer um exame oral de Sociologia Política e aguardava no corredor o resultado. Julien Freund, sociólogo e filósofo francês que lecionava a cadeira, saiu do gabinete e vinha “furioso”. O reitor não tinha disponibilizado dinheiro para contratar assistentes para o departamento. Por isso pediu a Adriano que, sem grande recompensa monetária, assumisse a função de “monitor encarregue de dar aulas ao primeiro ano”. Começaria assim, de maneira “inesperada”, a carreira académica do professor “perante um anfiteatro com mais de 200 alunos a ensinar Durkheim e Max Weber”.

Durou pouco tempo. Em dezembro do mesmo ano, durante um almoço com o departamento, recebia uma proposta de um professor belga para um contrato como professor assistente no curso de Comunicação da Universidade de Lovaina, na Bélgica. Em março de 1971 iniciava a nova aventura e começava também o seu doutoramento na mesma universidade. Terminou-o em 1977, ano em que regressaria a Portugal para passar a dar aulas na Universidade NOVA de Lisboa.

Estes dois episódios foram marcantes na vida profissional de Adriano. No entanto, este homem bem-humorado e com uma energia invulgar para a sua idade nunca viu o trabalho de professor e investigador como uma mera profissão. Antes como uma “realização”. Para esse espírito contribuiu em grande parte a sua experiência no estrangeiro, que se inicia em 1964. Nesse ano deixou Portugal, país onde nasceu, para terminar o seu primeiro curso, o curso de Teologia, também em Estrasburgo.

Adriano nunca teve bolsa de estudos e a sua família era muito pobre, por isso partiu para França à boleia: “ainda me lembro de chegar a Estrasburgo no carro duma família”, recorda com ternura. Depois teve de encontrar meio de subsistência. Nas férias trabalhou em fábricas, em bancos, numa cervejaria, e até como babysitter. Conta ainda que se mudou para o estrangeiro com objetivo de escapar ao serviço militar obrigatório.

Alguns colegas dizem simpaticamente que é sempre do contra, pois não consegue deixar de questionar o porquê das coisas.

Nos dois anos que se seguiram participou em “grandes debates” à margem das aulas: “reuníamo-nos para discutir tudo e mais alguma coisa, pondo tudo em causa. Era uma época de grande ebulição”. Participou inclusive nas manifestações do Maio de 68. “Em França as discussões sobre o futuro da sociedade estavam muito acesas. Caí nesse meio ingenuamente vindo de Portugal, um país que estava periférico, e mergulhei a fundo na experiência, que me marcou para o resto da vida. Posso dizer que até hoje sou um filho do Maio de 68.” Adriano continua a considera-se, assim, “um rebelde”, um “eterno adolescente. No sentido do questionamento”. Alguns colegas dizem simpaticamente que é sempre do contra, pois não consegue deixar de questionar o porquê das coisas.

Ao longo da sua formação teve também “professores maravilhosos” que abraçavam a profissão como a “realização de um objetivo apaixonante”. Sublinha, elevando a voz em tom de orgulho, que cada aula era para si “um abrir de um mundo”. O seu esforço estava em ir para a biblioteca descobrir autores que os professores não tinham dado só para os contradizer. Aí percebe quão entusiasmante o meio académico podia ser. Hoje entristece-o que os alunos só queiram aprender aquilo que o professor lhes ensina. Na sua primeira aula, costuma dizer aos alunos para esquecerem tudo o que lhes disser. “O que importa é aquilo que forem descobrir por eles próprios a partir daquilo que vivemos em conjunto na aula.”

Maria Lucília Marcos, orientanda de mestrado (em 1991) e doutoramento (em 1999) de Adriano Duarte Rodrigues, dá atualmente a cadeira de Teoria da Comunicação da licenciatura de Ciências da Comunicação na NOVA FCSH. Disciplina que chegou a dar em conjunto com o professor, a quem deixa muitos elogios. Salienta a sua generosidade e o seu método de ensino: “era um professor que ensinava, mas que também dava muita liberdade para percorrer os meus caminhos, fazer a minha própria investigação”.

Adriano é apaixonado pela investigação e encara a universidade “como uma vida”. Percebe-se ao exclamar com o dedo em riste: “a descoberta é uma luta dolorosa, às vezes com insónias, que dura dias, semanas, meses!” Entristece-o que muitos dos seus pares tenham perdido esse ânimo. Essa é uma das críticas que faz ao atual departamento de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, que fundou em 1979. Na sua opinião, a partir dos anos 90 o departamento “entrou à deriva”, considerando mesmo que estagnou até aos dias de hoje. Lamenta a carência de uma reflexão interna sobre o que é o seu projeto.

Antes disso, passou mais alguns anos na Bélgica, onde viu acontecer o 25 de Abril. Em 1975 receberia um telefonema do consulado português da parte do Major Vítor Alves, ministro da educação do VI Governo Provisório. Queria encontrar-se com Adriano e outros refugiados políticos. Reuniram-se num bar em Lovaina e foi então que Vítor Alves lhes disse que Portugal tinha as portas abertas para recebê-los. Havia uma amnistia programada e podiam ir ao consulado pedir um passaporte para voltarem.

Adriano Duarte Rodrigues em frente à Torre B, construída no seu mandato como diretor da NOVA FCSH.

Acabaria por regressar em 1976. Sabendo disso, um colega seu pediu-lhe que se encontrasse com uma pessoa em Lisboa para entregar um documento de renovação da bolsa. Acontece que essa pessoa era professor na Universidade NOVA de Lisboa. “Uma coisa na altura pequenina, um andar aqui perto na Avenida da República”, recorda. “Explicou-me que estavam a desenvolver uma universidade que se tinha formado há pouco tempo e pediu-me para deixar o meu currículo.” Adriano ainda voltou a Lovaina onde viria a encontrar um dia na caixa de correio uma carta a dizer que estavam à sua espera para começar a dar aulas na semana seguinte em Lisboa. Porém, ainda estava a acabar o seu doutoramento pelo que só em março de 1977 voltaria definitivamente a Portugal.

Dois anos mais tarde dá-se a fundação do departamento de Ciências da Comunicação, que coordenou de 1979 a 1986. Um curso que propunha oferecer uma formação e investigação alternativas aos modelos tradicionais das Ciências Sociais e Humanas. O primeiro no país. O que leva Adriano a afirmar que está “nos antípodas” daquilo que se faz hoje nos departamentos de Comunicação em geral.

Mas não sem algumas dificuldades. Teve de lutar contra muita gente para criar o curso, desde o ministério a professores e outras faculdades. Inclusive profissionais da comunicação. Queriam que chamasse os nomes mais sonantes para dar aulas no curso. Contudo, Adriano era “visceralmente contra a profissionalização do curso”. A ele interessava-lhe sobretudo a formação académica dos professores. Defende que se os alunos querem aprender jornalismo, devem aprendê-lo nas empresas de jornalismo. Se querem televisão, que aprendam nas empresas de televisão. Mas não na faculdade: “a faculdade é para estudar, para pensar, para questionar. Esta é a minha posição. Pode ser minoritária, mas não abdico dela”.

João Pissarra, antigo aluno e orientando de Adriano Duarte Rodrigues e atualmente um dos professores há mais tempo no departamento, tem uma boa relação com o professor e inclusivamente são amigos. Todavia, ressalva que Adriano não era uma pessoa fácil de lidar. Entende que por causa disso tenha tido uma vida muito atribulada no departamento. “Comigo as coisas mantiveram-se sempre tranquilas. Não concordamos em tudo, mas falamos disso francamente.” Sem entrar em pormenores, revela: “ao contrário de outras situações. Houve ruturas, as pessoas deixaram de se falar e criaram incompatibilidades”.

“Fui diretor num período terrível. Para dar uma ideia, precisei de alugar um espaço clandestino perto da Alameda para fazer funcionar os serviços académicos.”

Segue-se, em 1988, a experiência como diretor da faculdade. Durante o seu mandato melhorou as instalações, mandando construir a torre B. Por outro lado, teve de enfrentar a reação aguerrida da associação de estudantes após o aumento das propinas em 1989. Invadiam, roubavam e “todos os dias fechavam as portas a cadeado”, impedindo que se entrasse na faculdade. “Fui diretor num período terrível. Para dar uma ideia, precisei de alugar um espaço clandestino perto da Alameda para fazer funcionar os serviços académicos.” Adriano chegou mesmo a ser sequestrado pela associação de estudantes, pois queriam que se declarasse contra as propinas publicamente. “Quando cheguei a 1993 disse basta. Ainda assim procurei sempre dar o meu melhor. Não o melhor para mim, mas para todos, mesmo que para mim implicasse algum sacrifício.”

Adriano tornou-se diretor depois do antecessor, José Mattoso, se ter demitido e pedido ao professor que se candidatasse. Um convite que aceitou após alguma hesitação. Apesar dos vários cargos de chefia que assumiu ao longo da carreira, confessa que nunca teve “vocação administrativa”. Aquilo que lhe dá mais satisfação é “passar uma tarde a ler um bom autor, a fazer uma investigação” ou a receber os seus orientandos. “Deixem-me fazer isso e serei um homem feliz”, afirma a sorrir.

Desde que se jubilou em 2012, Adriano já leu a obra de Platão na íntegra, vai ao Brasil todos os anos colaborar com universidades brasileiras e continua a orientar teses de mestrado e doutoramento em Ciências da Comunicação na NOVA FCSH. “Todo o meu empenho está ou na minha pesquisa ou nas pessoas que me vêm pedir para as orientar.” João Pissarra mostra-se impressionado com a vitalidade de Adriano Duarte Rodrigues: “é fascinante uma pessoa que tem a idade dele continuar tão ativa e com tanta curiosidade intelectual”.

Tirando o ensino e a investigação, apenas a música para fazer o professor vibrar com tanta intensidade. “Até podemos agendar outra entrevista só para falar de música.” Todos os dias toca piano, sobretudo Bach, Chopin e Debussy. À segunda-feira inclusive vai para o Mosteiro dos Jerónimos tocar órgão. É o seu hobby de eleição. Chama-lhe a “respiração da alma” e garante que se não tivesse ingressado na vida académica, tinha-se tornado músico.

Adriano gostaria de aperfeiçoar a sua técnica e conseguir tocar melhor Bach, porém reconhece que na sua idade já não é assim tão fácil. Conforma-se e diz que “o que importa não é o resultado, é o esforço”. Um aforismo que aplica tanto na música como na investigação. É nessas duas coisas que continua a colocar todo o seu foco. Tem vários textos em andamento que gostava ainda de publicar em livro, quer continuar a publicar anualmente artigos científicos e quer melhorar a sua destreza no piano. “São estes os projetos que me fazem mover todos os dias. O resto não tem grande importância. Ah! E saúde… também é preciso”, conclui entre risos.

 

André Nóbrega

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