40 anos NOVA FCSH

Agora vai cantar o Borges

Viveu os dias a seguir ao 25 de abril de 1974 no Trem Auto, onde é agora a NOVA FCSH, com um cravo no tapa-chamas da G3. Na altura, não sabia que regressaria a este espaço como aluno, professor e uma pedra filosofal desta Faculdade.

 

Quem priva nem que seja por alguns minutos com Hermenegildo Borges, professor do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa até meados de 2018, ano em que se reformou, apercebe-se logo da musicalidade do seu rosto, da sensibilidade do seu olhar e da voz colocada nos acordes de tantas canções que criou e cantou durante a vida – de resistência, de alerta, de defesa dos sonhos.

Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida / tão concreta e definida / como outra coisa qualquer. Começa assim o poema de António Gedeão a quem Manuel Freire deu música nos anos de 1970. Hermenegildo Borges também o cantou às 12h do dia 20 de abril de 2015, em pleno átrio da faculdade, durante a homenagem prestada ao professor universitário, cientista e político Mariano Gago.

“Foi uma loucura que me passou pela cabeça”, refere. O antigo ministro da Ciência e Tecnologia [e depois do Ensino Superior] morrera subitamente a 17 de abril de 2015. Em reconhecimento do seu contributo para o desenvolvimento da ciência em Portugal, João Costa, então diretor da Faculdade, reuniu docentes, alunos e funcionários para um minuto de silêncio.

Este abraço é das coisas mais gratificantes que levo desta faculdade.

“Vim para baixo com os alunos. O sino da Igreja de Nossa Senhora de Fátima tocou às 12h e começou o silêncio. Um silêncio ensurdecedor”, afirma. “De repente, olhei para o Pedro Sousa, coordenador da Informática, e perguntei-lhe: ‘Alinha comigo a cantar a Pedra Filosofal’?” Ficou um pouco aturdido a olhar para mim e eu comecei a cantá-la a capella.

Como esta pedra cinzenta / Em que me sento e descanso / Com este ribeiro manso / Em serenos sobressaltos. Os versos romperam o silêncio protocolar, mas rapidamente começaram a ser cantados em coro. A homenagem uniu as pessoas pelo canto. “Foi ousadia da minha parte, mas fi-lo com a consciência do que estava a fazer”, explica. A Pedra Filosofal era um dos lemas de ação política de Mariano Gago e na véspera, quando descera à terra, também tinha sido recitado o poema de António Gedeão.

Ninguém ficou indiferente a este reforço da homenagem. “Vi lágrimas nos olhos de colegas. A três metros estavam o João Costa, o Carlos Correia, a Isabel Alçada e o Francisco Caramelo”, atual diretor da Faculdade, que não resistiu e saiu do alinhamento para lhe dar um abraço. “Este abraço é das coisas mais gratificantes que levo desta faculdade.”

 

Ouvir e falar. Olhar e ver.

O timbre de algumas palavras que entoa revela as origens transmontanas. O professor-cantor é de Loivos, uma aldeia de Chaves. Talvez por haver uma banda filarmónica ativa e de toda a gente cantar e compor, o então jovem de 14 anos aprendeu a tocar guitarra clássica. “Quando surgiu a consciência crítica em relação ao sistema político, por volta dos 19 anos, comecei a compor músicas contra a guerra colonial, o estado de abandono e a emigração”, conta.

Nunca chegou a tocar na banda filarmónica, mas surpreendeu todos quando participou num concurso de revelação de cantores, em maio de 1972, no Cineteatro de Vidago.  Enquanto os outros participantes cantavam versos de outros artistas, Hermenegildo-sonhador levou uma original, que ensaiara em segredo, dias antes com a banda. “Chamava-se Inferno Transmontano”, diz com um tom mais grave antes de inundar a sala da faculdade onde decorria a entrevista com estes versos:

O inferno transmontano

Só ouvir, nunca falar

Só olhar e nunca ver

Enquanto uns pedem pão

Outros morrem de comer.

Voa, voa, Rouxinol

Canta ao mundo a cantiga

Vem libertar-nos da vida

Que nos dá quem nos obriga.

No inferno transmontano

Cantava, cantava, um rouxinol.

Um dia quente, o Sol

Ardia e o chão queimava!

Enxadas sobre os ombros nus,

Escravos.

A Terra ouve a canção que a libertava,

O primata racional até chorava,

De alegria o gado também chorava,

A planície em flor também chorava!

Voa, voa, rouxinol

Canta ao mundo a cantiga

Vem libertar-nos da vida

Que nos dá quem nos obriga!

Mas este poisou cansado,

Do eco de ninguém.

Um limoeiro escuro

Em ferros o enlaçou.

Cortou-lhe o bico rosado,

Nunca mais pôde falar.

E decepadas as asas,

Nunca mais pôde voar.

Tirados até os olhos,

Nem sequer pôde chorar.

Só ouvir, nunca falar

Só olhar e nunca ver

Enquanto uns pedem pão

Outros morrem de comer!

No Inferno transmontano

Já não canta o rouxinol,

Já não há bois nem arado,

É uma floresta de ausência!

Um deserto em abundância,

Tudo fugiu ou morreu.

 

A canção ativista valeu-lhe uma medalha de prata na final, mas também um recado do Ministério do Trabalho de Vila Real para que tivesse “cuidado”. Depois desse festival, Hermenegildo Borges tornou-se uma figura pública na zona e foi trabalhar para o Palace Hotel Vidago, onde esteve durante seis meses, até ser despedido por ter defendido os funcionários. Queixou-se ao Tribunal de Trabalho e, numa reunião da Comissão de Conciliação e Julgamento, que lhe estava a correr de feição, o diretor do hotel puxou dos versos que o Hermenegildo-ativista tinha cantado naquele festival para dizer ao juiz que ele não era a pessoa que aparentava ser. “Pareceu-me um recado paternalista e muito compreensivo”, conta.

 

 

Não esperar sentado pela liberdade que lhe é roubada

Eles não sabem que sonho / É vinho, é espuma, é fermento / Bichinho alacre e sedento / De focinho pontiagudo /  Em perpétuo movimento. As canções continuaram a fazer parte do dia a dia de Hermenegildo Borges quando, em 1974, entrou para a Escola Prática de Infantaria de Mafra no curso oficial de cadetes do primeiro ciclo. “Tive de fazer a tropa e tinha também a consciência de que não conseguiria viver na cidade e prosseguir os estudos [tinha estado matriculado na licenciatura de Filosofia da Universidade Católica de Braga, mas nunca chegou a frequentá-la]. Era mais conveniente fazer este curso”, lamenta.

As serenatas ocupavam as noites da Primeira Companhia sediada na Caserna Treze. “Cantávamos Zeca Afonso e as minhas canções. ‘Agora vai cantar o Borges com a poesia agrícola’”, diziam os colegas do meu pelotão.

Em janeiro de 1974, o ambiente em Mafra já era de efervescência, de revolta e de vontade de mudança”. Outra canção que nasce de Hermenegildo-sonhador afronta os 13 agentes da PIDE que também estavam pela caserna, mas os seus colegas protegem-no. “Na Caserna Treze, não há luz nem sol / Embora esperemos pelo arrebol”, trauteia. “Não me consigo lembrar do resto, mas acaba assim: Mas espero um dia poder sorrir / Quando o céu de pedra sobre nós ruir / Morra antes livre a esperar sentado / Pela liberdade que me hão roubado.”

Na madrugada de 25 de abril, Hermenegildo acordou com um alvoroço na caserna. Nessa altura, já tinha transitado para o curso oficial de infantaria. “Algo se passa”, pensou. Ficaram todos eufóricos porque sabiam que o quartel de Mafra tinha mandado uma companhia não operacional para o aeroporto de Lisboa. Quando regressou, Hermenegildo foi com outros atiradores de infantaria – “já montávamos as G3 de olhos fechados” – dizer ao comandante que estavam disponíveis para ir a Lisboa.

Foi assim que Hermenegildo chegou ao Trem Auto, onde é agora a NOVA FCSH. “Estive aqui pela primeira vez, no sítio onde estamos a falar, no dia 27 de abril de 1974 e aqui permaneci com o meu pelotão de 30 homens até 2 de maio”, afirma. A companhia que veio de Mafra era composta por vários pelotões, incumbidos de fazer a guarda a vários edifícios estratégicos em caso de convulsão social. O de Hermenegildo fazia guarda ao edifício da Legião Portuguesa, na Rua António Serpa.

“Saíamos do Trem Auto de jipe e percorríamos cerca de 500 metros até ao Campo Pequeno. As manifestações de afeto eram muitas e era normal irmos na rua e virem ter connosco jovens e menos jovens a beijar-nos e a pôr um cravo no tapa-chamas da G3”, conta, enternecido. Mas a comoção atingiu o auge quando Hermenegildo e os colegas resolveram ir tomar o pequeno-almoço à Confeitaria Nacional, na Praça da Figueira, dado que o quartel estava sobrelotado e a higiene já não era muita. “Entrámos, sentámo-nos numa mesa pequena à direita e de repente começam a chover em cima da mesa notas de 20 escudos. Levantei-me, comovido, mas ao mesmo tempo constrangido e disse ‘Por favor não se ofendam, mas não sabemos como agradecer’”, recorda. E o pequeno-almoço ficou mais do que pago.

 

Da brigada anti-corrupção às salas de aula da NOVA FCSH

Depois de acabar a especialidade, rumou ao quartel de São Miguel nos Açores, onde trabalhou oito meses. “A primeira coisa que comprei com o meu primeiro ordenado foi uma guitarra que está neste momento a ser restaurada; tem 44 anos”, diz, entusiasmado. Dos Açores foi para um quartel do Porto, onde trabalhou no gabinete de imprensa. Aproveitou para transferir a matrícula da licenciatura em Filosofia para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto e foi fazendo os exames.

O primeiro emprego fora da tropa foi na União de Sindicatos de Vila Real, onde entrou em 1976. Mas o desencanto com a liderança e com a falta de fraternidade entre as ligas sindicais levou-o a sair um ano depois.

A entrada na Polícia Judiciária foi quase um acaso. Expressou essa vontade a um amigo que o incentivou e concorreu fora de qualquer período oficial. Veio a Lisboa fazer a prova escrita na Faculdade de Direito de Lisboa. “Eram quatro mil candidatos”, relembra. Venceu todas as etapas de admissão e entrou.

“Na altura, era normal as brigadas irem aos locais de residência dos candidatos pedir referências”, conta. Os habitantes de Loivos falaram todos bem dele, embora dissessem, a meio tom, “consta que ele é comunista e até trabalha na União Sindical”.

Por isso, quando veio para Lisboa frequentar o curso da Polícia Judiciária, no estabelecimento prisional de Lisboa, o ambiente era de prudência. “Sentia que corria um risco porque trazia o selo do comunismo. Mas isso fez-me aplicar ainda mais nos estudos e era o melhor aluno da minha turma.”

Quando acabou o curso, em 1979, foi colocado numa brigada anti-corrupção de elite, composta por cinco investigadores. Esta brigada, chamada BCIAC – Brigada Central de Investigação Anti-Corrupção, investigava casos a nível nacional, desde a instalação da Universidade do Minho às obras do Martim Moniz. “Tínhamos de nos vestir de fato e gravata e ter uma linguagem distinta, onde estava ausente qualquer forma verbal violenta; era uma linguagem não violenta empírica e não reflexiva.” Ao mesmo tempo, fez a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa como trabalhador-estudante.

O trabalho na Brigada, onde ficou até 1984, foi muito recompensador: “deu-me a grande capacidade de comunicar e de refletir sobre os modos de obter bons resultados por meios não violentos”. Esse reconhecimento levou-o a um convite para dar aulas na escola da Polícia Judiciária, levando na bagagem, porém, “apenas um conhecimento empírico e não reflexivo”.

Quando chegou à escola sentiu imediatamente a necessidade de ter ferramentas reflexivas para se sentir mais convincente junto dos alunos. No ano de 1987, Hermenegildo Borges dirigiu-se a Adriano Duarte Rodrigues, professor do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa, e disse-lhe: “Venho buscar ferramentas para a entrevista-interrogatório”, disse-lhe. Adriano Duarte Rodrigues aconselhou-o a tirar quatro disciplinas em regime avulso – Semiologia, Antropologia da Comunicação, Teoria da Comunicação e Teoria dos Sistemas.

Destas quatro cadeiras em avulso ao mestrado em Ciências da Comunicação na NOVA FCSH foi um ápice, sempre com o objetivo de ser um melhor professor na escola da Polícia Judiciária e criar dentro dela uma disciplina de retórica jurídica.

“O professor Tito marcou-me muito, deu-me Retórica e Argumentação no mestrado e fez comigo o caminho da tese em Retórica, Direito e Democracia que está publicada no Boletim do Ministério da Justiça, n.º 418, de julho de 1992. Laborinho Lúcio, Ministro da Justiça da altura e meu arguente, co-prefaciou a tese com o Prof. Tito, meu orientador no mestrado e no doutoramento”, recorda com orgulho.

 

A retórica da vida

Hermenegildo Borges acabou por se especializar em Retórica Jurídica – “um campo meu, que foi pioneiro em Portugal”. No entanto, a proposta de criação de uma disciplina de Retórica Jurídica na escola da Polícia Judiciária foi recusada. Na altura, o subdiretor disse-lhe: “vá em frente, o seu lugar não é aqui; é no CEJ [Centro de Estudos Judiciários] ou na faculdade. E eu, compulsivamente, inscrevi-me no doutoramento na FCSH”.

 

O resto escreve-se em poucas linhas. No ano letivo de 1995-1996, Arons de Carvalho foi para o Governo e Hermenegildo Borges substituiu o professor de Direito e Deontologia da Comunicação, durante sete anos até Arons de Carvalho em 2004. Terminou o doutoramento em 2000 e, volvidos cinco anos (mediante a apresentação e aprovação dos relatórios científico e pedagógico desses cinco anos de atividade docente), foi nomeado Professor Auxiliar, com efeitos retroativos ao ano 2000. No percurso pela faculdade enquanto professor, deu sete cadeiras: além de Direito e Deontologia da Comunicação, lecionou  Sistémica, Análise de Imprensa, Retórica e Argumentação, e Teoria Política, que deu durante 15 anos. No mestrado, foi docente de Conhecimento e Valor no Jornalismo, Retórica e Jornalismo e Retórica, Direito e Democratização da Justiça, esta última no mestrado que criou em Comunicação, Media e Justiça de que foi coordenador durante cinco anos.

Passar por esta faculdade foi encontrar o fundamento legitimado em grandes autores para o que o perseguia intuitivamente e de forma ingénua nas letras que cantava desde jovem

A descontinuação deste mestrado foi uma fonte de amargura e antecipou o salto para a reforma. “Valeu a pena ter aberto este nicho para responder a necessidades reais: nunca como hoje houve tanta necessidade de articular o universo da justiça com o universo da comunicação, mas tenho muita pena de ter acabado. Aliás, se não tivesse acabado, eu continuava na faculdade.”

A passagem pela faculdade enriqueceu-o enquanto pessoa e nas relações humanas. “Não saio desgostoso por não ter feito uma carreira mais reluzente; já tinha 21 anos de trabalho profissional e foi ousado da minha parte entrar na academia vindo de um universo profissional que suscitava reserva e que me levou por caminhos que eram então marginais nos interesses académicos”, reflete. A marca de que mais se orgulha talvez tenha sido o direito humanizado: “é importante reabilitar este dever de respeito pela pessoa humana”.

Passar por esta faculdade foi encontrar o fundamento legitimado em grandes autores para o que o perseguia intuitivamente e de forma ingénua nas letras que cantava desde jovem: “tudo se joga em volta do dever de respeito pela pessoa humana; a partir daí, podemos construir uma sociedade mais equilibrada, sustentada no reconhecimento da dignidade de cada um”.

Eles não sabem nem sonham

Que o sonho comanda a vida

E que sempre que o homem sonha

O mundo pula e avança

Como bola colorida

Entre as mãos duma criança

 

Obrigada, Professor.

Dora Santos Silva

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